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A moda como plataforma de protesto

Não é novidade pensar que roupas podem carregar mensagens e significados de protesto e que a moda já tem um histórico de posicionamento político. Mas a mais recente novidade, no entanto, foi a escolha do look da atriz Millie Bobby Brown durante o Kid’s Choice Awards.

Ao estrear o serido Stranger Things, Millie já quebrou paradigmas ao interpretar a personagem Eleven e ter seu cabelo raspado para a caracterização. Fora das telas, porém, a atriz não faz por menos: para além de seus looks incríveis, suas roupas se tornaram uma plataforma de protesto durante a premiação do Kid’s Choice Awards no fim de semana passado.

Millie vestiu um look all jeans customizado, feito pela Calvin Klein, no qual sua camisa recebeu o nome das 14 crianças e três professores mortos durante o atentado em uma escola de Parkland. A mensagem acompanha uma campanha ainda maior, intitulada March For Our Lives, e Millie fez questão de arrematar o protesto com um último bordado na parte frontal da camisa: “Never Again” (Nunca mais).

Esse tipo de posicionamento de militância na moda tem origem, em especial, no movimento punk inglês dos anos 70, mas a moda contemporânea está sentindo novamente esse chamamento de se posicionar diante das questões políticas e sociais que tomam forma em nossa época. Esse movimento vem acontecendo desde a vaga mensagem de Karl Lagerfeld em sua coleção de primavera/verão 2015 para a Chanel, quando modelos seguraram placas com os dizeres “Ladies first!” (Mulheres primeiro!), até a coleção de primavera/verão 2017 de Maria Grazia Chiuri para a Dior. A designer trouxe de volta à tona a famosa frase “We should all be” de Chimamanda Ngozi-Adichie em camisetas com dizeres como “We should all be feminists” (Todos nós devíamos ser feministas), sendo que uma parcela do valor era doado para uma entidade focada em garotas criada por Rihanna.

Apesar dessa proliferação de mensagens políticas nas passarelas e em fotografias no Instagram, ainda há uma certa dificuldade em realmente entender o que está sendo protestado e qual diferença elas estão fazendo. Em um artigo para a i-D Vice, Charlotte Gush relembra um trecho de um texto escrito por Sophie Slater para o mesmo site: “Nós estamos sendo inclinadas a ideias que encorajam, superficialmente, um processo genuíno. É só quando consideramos quem está ainda no topo da cadeia – e a exploração na base – que podemos entender essa dolorosa ironia.” Isto é, enquanto ainda houver mulheres trabalhando na costura dessas peças caras e sendo mal remuneradas por isso, não há uma verdadeira potência a ser entregue em roupas com dizeres feministas e de empoderamento. Não são camisetas e roupas que irão realmente mudar o mundo, apesar de isso, pelo menos, ajudar na conscientização.

No começo de março, a designer de camisetas Katharine Hamnett deu uma entrevista para o jornal The Guardian apontando que “as camisetas de protesto da alta moda que você vê hoje tendem a ser um pouco falastronas. Elas sentam no muro com mensagens fracas.” Por isso, Charlotte Gush acredita que vestir essas camisas se trata de uma performance fashion, na qual se tem a impressão de que se está engajado com questões sociais e políticas, mas sem realmente oferecer uma promessa de mudança ou de comprometimento com essas causas. Isso vale, por exemplo, ao caso dos vários homens que usaram broches com os dizeres “Time’s Up” durante o Golden Globes, sendo que eles próprios eram os responsáveis por aqueles protestos.

“Enquanto slogans impressos em produtos fashion que têm como objetivo se tornarem sucessos comerciais não são particularmente atitudes radicais, isso não significa que escolhas fashion não possam ser uma forma de se posicionar politicamente. Das icônicas camisetas de Katharine Hamnett com os dizeres ‘58% não querem pershing’ (mísseis nucleares) e que ela usou durante um encontro com a Primeira Ministra Margaret Thatcher, até a poderosa camiseta “IMMIGRANT” de Ashish (que ele usou para apresentar a coleção de primavera/verão 2017, um desfile obscuro explorando o crescente ódio presente no Reino Unido após a votação do Brexit).”

Com isso, o fato de Millie ter usado um look customizado em uma premiação não é exatamente a grande novidade, mas sim o fato de ela ter vestido um look customizado com dizeres de protesto e com uma mensagem política que ela, no seu lugar privilegiado de fala, pôde dispersar e reforçar em sua importância. Assim como no caso de Hamnett, que encontrou Margaret Thatcher mesmo sem querer, foi nessa oportunidade desagradável que a designer encontrou uma forma poderosa de manifestar uma mensagem importante, a mesma que, ainda que menos punk, também transpareceu pelo look de Millie Bobby Brown.

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