Publicado em Deixe um comentário

A streetwear também é nossa! A investida feminina na moda esportiva

O Hypebeast é um dos maiores portais de conteúdo de moda de rua, mas originalmente ele tem seu material mais direcionado ao público masculino. Contudo, o interesse pela streetwear e pela moda esportiva também se tornou uma pauta relevante entre as mulheres, especialmente depois que as irmãs Kardashian e Jenner adotaram o estilo e Rihanna se tornou uma parceira criativa da Puma com a linha Fenty x Puma.

Consequentemente, o mercado fashion se adaptou à tendência não só no varejo, mas também um novo portal de conteúdo focado nesse nicho feminino nascia também como uma subcultura. O Hypebae, então, se tornou o equivalente feminino a tratar de streetwear, moda esportiva, comportamento e beleza.

De acordo com um relatório publicado pela WGSN, sabemos que essa movimentação já acontecia desde o ano passado, mas a grande novidade nesse caso é como a diversidade também ganhou relevância entre as marcas: além de oferecerem preços mais baixos e atrativos para as novas fashionistas, grifes e designers de moda estabeleceram uma maior conexão com a cena do skate e do hip hop, de modo que suas criações tivessem também mais credibilidade para aquelas pessoas que vestiriam suas peças ao mesmo tempo em que viviam no contexto que serve de inspiração.

No pinkwashing, please!

No início dos anos 2000, com a ascensão da black music e de grupos como Destiny’s Child e parcerias musicais como a firmada entre Kelly Rowland e Nelly, a moda hip hop feminina pouco fazia uma adaptação das peças esportivas masculinas, como moletons e abrigos, o que causava uma certa masculinização das fãs do gênero musical. Fora isso, havia também o problema da falta de tamanhos que pudessem servir para as mulheres, apesar de o estilo muitas vezes apostar em peças oversize.

Uma resposta a isso é a popular história da designer Leah McSweeney da Married to the Mob, que enfrentou uma batalha judicial com a Supreme por ter usado o icônico logo em uma camiseta com os dizeres “Supreme Bitch”. “Quando se trata de streetwear, pode ser difícil dizer se as mulheres estão simplesmente menos interessadas ou se há apenas uma falta de opção. (…) As mulheres consumidoras podem se sentir intimidadas pela natureza exclusiva e de clube de meninos que a a categoria tem, ou simplesmente não se interessam em esperar em filas [para comprar produtos exclusivos] ou lidar com o modelo de escassez que caracteriza o sucesso de muitas das marcas de streetwear e tênis”, aponta o relatório da WGSN escrito por Jackie Chiquoine.

Off-White SS17

Por outro lado, de acordo com uma pesquisa feita pelo NPD Group em 2017, a quantidade de mulheres comprando tênis cresceu mais rápido que os setores masculino e infantil, que têm estado estagnados há algum tempo. Levando todo esse contexto em consideração, a grife Off-White se tornou um dos expoentes da streetwear feminina ao justamente não se reservar ao público masculino, mas priorizar por uma diversidade que também foge da representação estereotipada de moda feminina – isto é, se for para criar um tênis feminino, é muito mais importante oferecer o tamanho correto do que adorná-lo com rosa para se tornar adequado para mulheres.

A Nike, que também já fez parceria com a Off-White, pegou carona na tendência lançando a coleção The Season of Her após negligenciar por tanto tempo as suas consumidoras hypebae. Com diferentes cores para o modelo Air Jordan em tamanhos femininos, a grife esportiva logo lançou também uma linha de roupas all white para mulheres, bem como o Air Force 1s recebeu um novo design feito exclusivamente pelas mulheres da equipe da marca.

Instagram-focused

E seguindo a plataforma onde Kylie Jenner popularizou seus looks esportivos, também a Nike estabeleceu, em 2017, uma parceria com influencers como a modelo Paloma Elsesser e a nail artist Madeline Poole para lançar o projeto International Girl Crew, com o qual a marca relançou o tênis Cortez com cores inspiradas nas cidades onde moravam as garotas. “Para se estabelecer na já existente comunidade, a Nike organizou eventos especiais em suas lojas para o lançamento do projeto, permitindo que fãs customizassem seus sapatos usando o sistema NikeID”, relata a WGSN.

Com isso, a lição aprendida é que o Instagram é o principal locus digital onde essa tendência se dissipa, especialmente quando se considera que 80% dos usuários da geração Z e 74% dos millennials se sentem diretamente estimulados a comprar tais produtos quando divulgados na plataforma. Nesse sentido, os fãs do streetstyle vêem marcas como a Supreme como algo que vai muito além do logo:

“A aquisição de itens cobiçados fez gerar uma nova comunidade massiva composta de hypebeasts espalhadas por todo o mundo. A comunidade opera com um conhecimento compartilhado sobre a história das marcas, algo também suportado por entidades massivas e secundárias do mercado digital como o StockX e o fórum do Reddit r/Streetwear (atualmente com cerca de 550 mil membros). (…) [Portanto,] criar um ambiente onde as mulheres se sintam confortável em descobrir e testar itens é essencial. Tanto o ambiente quanto o estoque de uma butique de streetwear ou tênis tradicional é criada para receber uma comunidade majoritariamente masculina. Em resposta, butiques compostas apenas por mulheres ou centradas em mulheres estão sendo abertas ao redor do mundo na tentativa de criar uma experiência diferente, priorizando a inclusão e os múltiplos pontos de entrada para tanto os consumidores casuais quanto àqueles dedicados à streetwear.”

Dois exemplos de estabelecimentos com esse foco estão na Europa, um em Amsterdam (Maha) e outro em Berlim (Isla). Enquanto a loja Maha é uma loja que propicia um ambiente agradável para mulheres, a Isla nasceu como um salão de nail art e de moda streetwear e tênis para mulheres. Para a fundadora do estabelecimento, Charissa Chioccarelli, apesar de muitos de seus produtos terem design masculino, sua estratégia de compra e de merchandising, no entanto, são orientadas ao público feminino, o qual ela atrai fazendo eventos na loja.

Daqui em diante

Entre as conclusões do relatório da WGSN estão a necessidade das marcas em dar mais atenção às consumidoras de streetwear, alinhando suas produções com os valores dessas mulheres que têm ganhado força no mercado ao mesmo tempo em que a inclusão e diversidade se tornam a tônica da geração.

É por esse motivo também que as consumidoras mais jovens e mais acostumadas à noção fluida sobre gêneros pede muito mais do que modelos menores e em cor de rosa: trata-se de criar produtos que se adequem a essa nova cultura, respeitando suas características demográficas e os mindsets que permeiam essas novas fashionistas hypebae.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

11 + 4 =