Publicado em Deixe um comentário

A subcultura do Sereísmo: vestindo caudas de sereia por uma melhor saúde mental

Certas tendências de comportamento e de moda vêm e vão o tempo todo, e isso pode ser expressado desde a popularização de algum acessório em especial, como foram as tattoo chokers nos anos 90 (e seu retorno recente) ou então a maneira como sereias se tornaram uma inspiração estética e comportamental para tantas pessoas. Durante o último carnaval brasileiro, tivemos muitos foliões que adaptaram a inspiração a suas fantasias, mas, por outro lado, ao redor do mundo, diferentes pessoas encontraram nesses seres mitológicos uma representação de si e uma maneira de superar problemas como ansiedade e depressão.

Em reportagem para a Dazed Digital, Richard Greenhill conta a história de Stacie Orban, uma mulher inglesa de 24 anos que cresceu buscando formas de superar seus problemas de saúde mental, mas que só mais recentemente, ao se reconhecer na subcultura das sereias, é que ela conseguiu realmente construir uma maior resiliência psicológica para si própria.

Como descreve Greenhill, essa subcultura tem um histórico que vem desde o começo do século 20, quando a atriz e nadadora profissional australiana Annette Kellerman se destacou com seu trabalho de balé aquático e performances como a do filme Daughter of the Gods (1616), na qual ela aparece vestindo uma cauda de sereia. Em 1984, o filme Splash trouxe de volta essa iconografia cult lançada por Kellerman, o que fez com que as gerações seguintes reproduzissem a inspiração e a atualizassem até chegar nos cabelos coloridos e nas maquiagens com glitter atuais.

Com uma grande força, em especial, nos Estados Unidos, a subcultura das sereias não é algo reservado apenas para mulheres, mas também muitos homens têm se interessado até mesmo em tomar cursos de sereia em escolas, bem como realizar performances profissionais para audiências. No entanto, para além do trabalho artístico por trás disso, é especialmente a maneira como essa inspiração forma uma comunidade, por exemplo reunida no forum MerNetwork, faz com que as pessoas se conectem por compartilharem um gosto e uma mentalidade.

Foi assim que Stacie começou a pesquisar mais sobre o assunto e começou a criar suas próprias caudas de sereia. “Não sabia muito o que esperar, era meio que só para dizer que eu tinha tentado. Mas desde a primeira vez que entrei na água, fui capaz de nadar logo de primeira. Foi quase natural para mim e eu gostei muito. Realmente melhorou muito minha autoconfiança”, ela conta.

Como nem todas as piscinas públicas aceitarem que os visitantes nadem usando caudas, Stacie acabou começando a nadar ao ar livre, então descobrindo efeitos benéficos para a saúde que ela nem esperava antes. “A água fria faz maravilhas para a circulação sanguínea, andrenalina e saúde mental. É fantástico.” E pesquisas científicas podem comprovar isso, já que foi constatado que a água fria possui duas principais vantagens para a saúde mental: ela reduz a reação ao stress conforme cada vez mais se é exposto à água fria, o que significa que alivia a ansiedade e também reduz alguns sintomas que podem ativá-la. Fora isso, também se considera que a depressão pode ter alguma relação com inflamações e a água fria tem propriedades anti inflamatórias também.

O mesmo vale para Emily Wright, de 36 anos, apesar de ela não nadar ao ar livre. Depois de sofrer um trauma em sua coluna, Emily se afastou do trabalho por seis meses, mas as fortes dores fizeram com que ela acabasse saindo do seu trabalho. “Eu me sentia incrivelmente culpada de ter saído de meu trabalho e por ser um peso para eles enquanto eu estava de licença”, conta. Por conta da dor crônica, Emily não conseguia mais trabalhar e acabou se isolando do mundo, gastando boa parte de seus dias deitada na cama, chorando e às vezes até mesmo gritando. “Eu me sentia totalmente sem esperança, como se não houvesse nenhuma maneira de superar a dor e a ansiedade que eu estava tendo, e como se nada mais pudesse acontecer de bom na minha vida”, ela conta.

Depois de dois anos de fisioterapia e tratamentos, Emily conseguiu controlar sua dor na coluna sem a necessidade de usar analgésicos, mas foi só depois de sua gravidez que ela percebeu que essa dor crônica havia também influenciado em sua percepção corporal e autoestima. “Eu percebi que eu tinha medo de mover meu corpo de forma espontânea, preocupada de que isso pudesse me causar dor no dia seguinte ou me levar de volta ao estágio em que estive presa nos anos anteriores.”

Foi nesse momento que, no entanto, ela descobriu a comunidade das sereias por meio de uma amiga, no Facebook, e foi a partir de então que ela passou a fazer parte dessa comunidade na qual se sentiu mais pertencente e acolhida. “É como se o mundo exterior nem existisse, como se nada mais importasse a não ser aquele momento em que você está dentro da água e os movimentos que você está fazendo”, relata.

Nenhuma pesquisa científica parece apontar para possíveis problemas a serem causados pelo nado recreacional, mas que essa prática pode ser considerada como algo mais relacionado ao bem estar, assim como a meditação. Uma vez que a ansiedade pode ser algo que se desperta a partir da percepção de alguém sobre a falta de controle diante de uma situação ou de si mesmos, ter controle sobre seu próprio corpo e respiração debaixo da água faz com que algumas dessas pessoas, adeptas do “sereismo”, consigam superar esses problemas ao combinar o lazer a um maior controle de si mesmas e de aliviar aquilo que as causa ansiedade e depressão.

Mas é para além dos benefícios da prática e dos efeitos curativos da água que essas garotas e garotos encontram na comunidade das sereias um senso de união, respeito e suporte, já que muitos ali também passam pelos meus problemas. Diante disso, até mesmo uma hashtag passou a circular pelo Instagram para reforçar o amor próprio, conforme a tag #bodypositivemermaids foi criada para celebrar sereias de todos os tamanhos, formas, cores e configurações.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

quatro × 1 =