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Diaspora; Costa Chica: Em busca de uma identidade afro-mexicana

Mesmo depois de o governo mexicano realizar um censo para contabilizar a população nacional em 2015, a pesquisa falhou em reconhecer oficialmente os 1.38 milhões de cidadãos com ascendência africana morando no interior do país.

É em regiões como a chamada Costa Chica, nos arredores de Chacahua, que habitam essas pessoas que, no entanto, têm dificuldades em expressar ou até mesmo apontar o que seria uma cultura afro-mexicana, especialmente devido à grande influência e força da cultura ocidental (e americanizada) estabelecida no país.

Foi com uma imersão de cinco semanas na comunidade de El Azufre, no sul do México, que a fotógrafa francesa-dinamarquesa Cécile Smetana Baudier captou as imagens que compõem seu photobook Diaspora; Costa Chica. Depois de morar em uma tenda no jardim de uma dessas famílias, Baudier pôde entender melhor a rotina do vilarejo que sequer tem acesso à internet.

Em sua obra, a fotógrafa narra como a maioria dos moradores acorda antes mesmo de o sol nascer, assim evitando o calor intenso. É nesse momento que as mulheres começam a fazer as tortillas e os maridos saem para pescar. “A família tem importância central na vida da maioria dessas pessoas que vivem em El Azufre e muitos dos que nascem lá, permanecem na vila durante toda a vida. Não há internet e muito pouco contato com o mundo externo”, comenta Baudier.

Mesmo assim, a identidade dessas pessoas e a forma como se enxergam ainda é bastante conflituosa. Além de não se sentirem representados nem como mexicanos ou como africanos, essas pessoas também não são educadas sobre suas origens: a única coisa que sabem é que vieram da África.

Entre os jovens, em especial as garotas, a fotógrafa descubriu que se sentem feias por serem “muito negras” e, por isso, elas pintam suas faces com pó branco. “Não estamos acostumadas às pessoas achando que somos bonitas”, revelou uma das moradoras, Nicolasa, de 60 anos.

Em uma fotografia, Baudier capta uma roda de meninas de 12 anos se maquiando com pó branco. Uma delas, Karen, tem olhos claros e cabelo quase loiro, mas se recusa a ser chamada de afro-mexicana, dizendo não gostar da palavra.

Parte de uma competição realizada pelo British Journal of Photography, o projeto Postcards from Copenhagen é aberto para fotógrafos que desejem imergir e refletir em suas fotos as identidades e manifestações de um povo, como foi o caso de Baudier ao fotografar El Azufre.

“Eu cresci com um pai que nasceu na Tunísia, foi criado na Argélia, estudou na França e então trabalhou e viveu na Dinamarca. Ele nunca se sentiu parte de nenhum lugar”, comenta a fotógrafa. “Eu vi como isso pode se tornar algo que te define – o sentimento de alienação e não de pertencimento. Se você é constantemente apontado como não pertencente, que não preenche o perfil daquilo que deveria ser ou se parecer, isso muda quem você é e como você vê o mundo.”

Radicado no Brasil, mas nascido na República Tcheca, o filósofo Vilém Flusser é autor do livro Bodenlos, no qual ele tratou justamente de sua condição nômade: um judeu tcheco que falava alemão, mudou-se para o Brasil e aprendeu português, assim como escrevia seus textos também em inglês e francês. E foi nessa miscelânia e no trânsito entre tantos territórios que o seu não-pertencimento tornou-se, em última instância, a sua própria forma de identidade e identificação.

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