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Luxo no Lixo: A moda sustentável de Kevin Germanier

Você sabia que a indústria da moda é a que mais polui o meio ambiente depois do setor do petróleo? Sim. A produção de calças ou malhas de poliéster, por exemplo, que são as fibras sintéticas mais usadas pela indústria têxtil, requerem mais de 70 milhões de barris de petróleo todos os anos e demoram mais de 200 anos para se decompor.

Já a viscose, que também é uma fibra artificial, porém feita de celulose, exige que 70 milhões de árvores sejam derrubadas todos os anos para que roupas com esse tecido sejam produzidas. Além disso, também o processo de tingimento, ao usar substâncias químicas, acaba por causar poluição das águas no momento de lavagem.

Várias iniciativas, no entanto, tentam combater esse problema a partir de diferentes linhas: seja diminuindo o ciclo de lavagem das roupas, a prática de comprar peças de segunda mão ou então optar por roupas que são feitas de fibras naturais, como algodão e linho. Há também alguns projetos que buscam formas naturais de tingir as roupas, por exemplo usando flores.

Já alguns designers priorizam o material que têm em mãos e trabalham na modelagem e na costura de peças com design diferenciado. Porém, mesmo com todas essas ferramentas e possibilidades, ainda há um preconceito sobre o estereótipo de que um look mais sustentável tenha um estilo mais hippie, o que não necessariamente é verdade – e o designer Kevin Germanier, recém formado na Central Saint Martins, está pronto para provar o contrário.

Esse estereótipo era visto de forma negativa mesmo dentro da instituição, até Germanier apresentar sua coleção final no ano passado. Como descrito em reportagem da Dazed, “modelos em perucas neon desfilaram pela passarela ao som de música disco dos anos 80, em maiôs nude cheios de pedrarias coloridas, como se elas estivessem nuas, cobertas de cola, e então as pedras foram atiradas sobre elas. Cada garota teve seu look finalizado com um par de brincos de argola gigantes e com pedrarias.”

Germanier conta que escolher um approach mais sustentável na moda foi algo natural para ele. “Quando me mudei para Londres e não tinha dinheiro, tive que reaproveitar meus lençóis para criar meus tecidos”, conta o designer que, sempre que possível, tentava evitar tecidos ecológicos clichês como o linho. Para isso, ele optava por adereços que já não eram mais utilizáveis por estarem perdendo suas cores originais e o resultado foram roupas cobertas de pedrarias em diferentes cores, jeans reaproveitado e basicamente qualquer outro tecido que estivesse disponível.

Com uma fotografia etérea feita por Nikolay Biryukov e digna de uma sequência filmada por David Lynch, o lookbook da coleção de outono 2018 chamou a atenção de ninguém menos que Björk, que escolheu uma das criações de Germanier para suas fotos promocionais do álbum Utopia.

Em entrevista para a Dazed, o designer conta que, durante sua residência em Hong Kong, ele descobriu que diferentes aplicações e pedrarias eram enterradas em buracos porque eram vistas como não mais aproveitáveis e a reciclagem não era uma opção. “Achei isso ridículo, então voltei para Londres com 93kg de miçangas”, conta.

Por outro lado, Germanier não gosta de se autointitular um designer sustentável por isso conectar a uma imagem estereotipada. “É como se fosse uma camiseta de linho escrito ‘Go Green!’. Não é só isso, você tem que pensar fora da caixa e desafiar o gosto das pessoas também. Você precisa chamar a atenção das pessoas. Estamos fazendo roupas e elas precisam parecer atraentes. Conforme você sabe mais sobre o produto, você também aprende que ele é sustentável, todas as miçangas e jeans reciclados, e isso agrega valor.”

O designer vê que há um maior interesse pela sustentabilidade na moda por parte da sociedade, mas que ainda existe um certo julgamento quando profissionais da área tentam essa abordagem. Mas são esses tipos de comportamentos controversos que inspiram Germanier a evoluir e confrontar o cenário atual: “É a força, não a fraqueza. Quando conversamos sobre moda, é tudo muito falso, cheio de cuidados. E todos esses clichês são algo que quero destruir. É satírico. É fazer piada da moda ao criar a mais glamourosa coleção feita de lixo.”

Desde então, após se graduar na Saint Martens, o designer recebeu logo na manhã seguinte ao desfile uma ligação da Louis Vuitton que lhe ofereceu a vaga que ocupa hoje na grife. “Tenho uma vida dupla tipo o Batman. Trabalho das 9h30 às 20h30 para a LV e então trabalho para minha própria grife durante a noite, das 21h às 3h. É uma vida bem intensa, mas eu amo fazer roupas – realmente. É uma forma de expressar minhas frustrações, preocupações, quando eu demonstro tristeza. É bem tosco e clichê, mas é o que é. Sou apaixonado por roupas.”

Para o futuro, o designer espera ver as pessoas usando sua grife e um maior amadurecimento de seu trabalho. Desde sua coleção de graduação até a coleção de outono deste ano, Germanier já deu um novo toque mais sério e competente, de modo que quase nenhum lixo foi produzido durante esse novo processo.

“Estou ainda mais orgulhoso com essa nova coleção porque ela é ainda mais a minha cara. A mensagem é ainda mais forte porque eu a fiz durante todas as noites por dois meses”, conta o designer que, por outro lado, também revela ter recebido a ajuda de vários amigos que também trabalhavam durante o dia. E é esse esforço e paixão que Germanier quer explorar em sua marca.

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