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O retorno mitológico de Nan Goldin

Nan Goldin ficou conhecida por suas fotografias cruas e íntimas de personagens que, muitas vezes, são marginalizados no dia a dia: sejam eles da comunidade trans, profissionais do sexo ou mesmo cenas da vida íntima de famosos e anônimos que eternizaram seus olhares e seus corpos diante das lentes da fotógrafa.

Agora Goldin retorna com uma série de fotografias e colagens que mantém sua essência crua e sincera, mas que também traz consigo referências mitológicas recentemente apontadas por Lexi Manatakis, em reportagem para a Dazed Digital.

Veils (2018) traz uma referência à deusa Demeter, que tem como um de seus elementos iconográficos o véu. A história dessa mãe mitológica ainda conta com a trajetória de sua filha, Persephone, que foi raptada por Hades e levada para o inferno. Para resgatá-la, Demeter passa pelos sete portões do submundo, nos quais deixa um de seus sete véus em cada um deles.

“Cada véu representa a conexão da deusa com a Terra. Cada vez que Demeter remove um, ela revela mais sobre seu verdadeiro eu – características muito mais entrelaçadas aos elementos do subterrâneo do que outrora se imaginava. Não se sabe se os véus dessa história são reais ou metafóricos, então eles não só representam as várias camadas da alma, como também mostram que o véu está intrinsecamente conectado à identidade desde o começo dos tempos”, escreve Lexi.

A exposição Nan Goldin: Träume, disponível até o dia 10 de maio em Genebra, traz uma grade de colagens dos trabalhos realizados por Goldin nos últimos 10 anos, nos quais suas fotografias são postas ao lado de imagens de estátuas de personagens mitológicos e pinturas clássicas que estabelecem a conexão entre esses arquétipos atemporais.

Para Lexi, faz sentido pensar que Goldin usa a mitologia de modo a revelar os detalhes que compõem a sua obra porque, assim como a mitologia continua sobrevivendo por milhares de anos e também se mantém como narrativa sobre moralidade, também as fotos de Goldin são atemporais, mas humanizam os arquétipos mitológicos à maneira como os deuses gregos eram pensados: soberanos, porém também mundanos. “Como uma mitologia urbana, as fotos de Nan Goldin serão sempre resgatadas e transformadas em alegorias para ensinar o futuro sobre as várias realidades cruas da sexualidade, do vício, da liberdade e, acima de tudo, do ser humano.”

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