Trend Alert: Misoginia está in, diversidade está out

Por Clara Drummond

 

A recado da última semana de moda de Outono-Inverno foi claro: toda essa conversa dos últimos anos sobre diversidade de corpos não passou de um sonho de uma noite de verão. As modelos nunca estiveram tão magras. No dia 12 de Fevereiro, Vanessa Friedman, diretora de moda do New York Times, tuitou: “Até mesmo eu estou impressionada com a extrema magreza das modelos do último desfile do Jason Wu”.

Não é de hoje que corpos entram e saem de moda. Nas últimas décadas, tivemos diferentes figuras como padrão de beleza supremo: Marylin Monroe, Twiggy, Cindy Crawford, Kate Moss, Gisele Bundchen, Kim Kardashian, e por aí vai. No mundo ideal, não teríamos sequer body positive, e sim body neutrality, pois um corpo é um corpo, o importante é que esteja saudável, não bonito, mais próximo da nossa atitude em relação aos corpos masculinos – afinal, exibir uma barriguinha à la “dad bod” pode ser considerado até mesmo um charme, não desleixo. Mas não vivemos no mundo ideal.   

Quem trabalha com moda gosta de enfatizar que aquilo que vemos nas passarelas é um reflexo de questões maiores que estão ocorrendo na sociedade. Os anos 50, por exemplo, foi um período em que sociedade passava por um momento especialmente misógino e patriarcal. As mulheres da época se limitavam à esfera doméstica, cuidavam com esmero tanto da casa quanto da aparência, com batom vermelho impecável, unhas sempre feitas, cabelo com ondas bem trabalhadas, fruto de horas e horas com rolinhos na cabeça. 

Quanto mais tempo gastamos pensando na nossa aparência, menos tempo pensamos na nossa subjugação. 

A prova disso veio na década seguinte. Quando mulheres passaram a lutar pelos seus direitos (salariais, reprodutivos), consequentemente também se livraram dos sutiãs e demais artefatos que as oprimiam, como a obrigação em apresentar unhas, cabelos, maquiagem e corpo perfeitos. O sexo, drogas & rock n’roll combinavam com uma moda e atitude mais livre. Em Woodstock, ninguém estava preocupada com o look perfeito (cá entre nós, muito mais sexy e cool que as influencers do Coachella/ Burning Man). 

Em abril de 1968, no auge dessa revolução cultural que foi tão importante para alargar nossas concepções de gênero, a indústria da moda – a.k.a revista Vogue – “inventou” a celulite. Quer dizer, as mulheres sempre tiveram irregularidades no tecido adiposo das coxas e glúteos, mas antes isso não era um problema, muito menos uma doença, e sim uma mera característica. A manchete anunciava: “Celulite: a gordura que você antes não poderia perder”, apresentando o conceito para as mulheres americanas, e sugerindo uma série de procedimentos e exercícios para eliminá-la (spoiler: até hoje a celulite não tem “cura”). Essa doença inventada é encarada como um backlash às conquistas do feminismo, como a pílula anticoncepcional, a liberdade sexual e a inserção das mulheres no mercado de trabalho. A partir daí, as mulheres passaram a ter duas missões na vida: mudar o mundo e mudar a bunda. 

Então o que a volta da extrema-magreza tem a dizer sobre os nossos tempos? No início da década de 2010, durante o ápice do discurso sobre a diversidade de corpos, as mulheres iniciaram uma nova onda do feminismo. As redes sociais já dominavam nossa forma de comunicação – não à toa, muitas das palavras-chaves eram, na verdade, hashtags, como #meuprimeiroassédio, #amigosecreto, #girlboss e #metoo, ou jargões cheios de estrangeirismos, como gaslight e mansplain. A ênfase no transfeminismo e a introdução de sujeitos não-binarie no discurso público também estimulou a maneira que pensamos os papéis tradicionais de gênero. Por um breve momento, parecia possível um mundo em que nós pudéssemos viver com carboidratos e direitos. 

Nem tudo é sociologia, é óbvio. As manchetes sobre a volta do heroin chic vem junto às manchetes sobre a epidemia de Ozempic (o remédio para diabetes tem sido usado para perda de pesa ultra-rápida).  Mas, definitivamente, não é uma coincidência que a emergência da extrema-magreza venha junto com um discurso que prega controle completo da mulher.

No mundo da moda, o controle pode se limitar apenas ao corpo, e vem através de dietas estritas que podem levar a distúrbios alimentares, distúrbios de imagem, depressão, anorexia e bulimia. Mas, no mundo afora, esse controle ocorre de forma muito mais ampla, vide o alcance de uma nova leva de influencers masculinistas. Os mais radicais pregam que as mulheres são propriedade masculina, devem ficar em casa, obedecer ao marido, não podem dirigir, e até mesmo o estupro é justificável. No Brasil, Thiago Schutz, mais conhecido como “o calvo do Campari”, diz coisas como: “Se fosse legal uma mulher dar pra cem caras, todo mundo iria procurar mulher para casar no puteiro”. Para o Calvo do Campari, a mulher ideal precisa ser inexperiente para não conseguir discernir entre um cara bom de cama ou ruim de cama. 

Em 2023, as meninas que querem estar na moda precisam se preparar para viver sem comida, sem saúde, sem alegria, sem sexo e sem autonomia. 

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