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Qual o preço da sua identidade? O consumo colaborativo pode ajudar o mundo

Certa vez, dentro de uma loja multimarcas, me deparei com uma jaqueta de couro fake (até aí tudo bem, afinal fabricar couro hoje em dia polui tanto quanto uma calça jeans), por apenas R$ 250. Olhei a etiqueta mais de uma vez para ver se não estava delirando: “Como assim uma jaqueta dessas por esse valor? Vou levar, claro!”. Assim como não costumávamos pensar de onde vem o alimento que estamos comendo, a moda também tinha suas saídas de mestre para velar do consumidor como aquela peça chegou naquela arara por aquele preço. É humanamente impossível uma jaqueta custar R$ 250.

Por menos de exatas que eu seja, a conta não fecha. Para fazer uma vestimenta é preciso de mão de obra, de custos de produção, fabricação, compra de tecido, zíper, botões. Também é preciso exportá-la, de navio, junto com tantas outras roupas daquela mesma marca, chegar no país de destino, pagar os impostos de importação, colocar aquilo em uma dinâmica de distribuição (caminhão, avião, o que for), para chegar na loja e um vendedor colocá-la onde encontrei. Faça você mesmo as contas. Se a marca não quer largar a mão do seu lucro para deixar seu dono entre os mais milionários do mundo, alguém na linha de produção não está recebendo o que merecia ganhar. Como Ronaldo Fraga bem disse uma vez: “Não tem como um vestido custar R$ 30, tem sangue pingando por ali”.

Além de ser uma das áreas com mais denúncias de trabalho escravo ao redor do mundo (Brasil, incluso), a moda ainda caminha no ritmo dos tempos modernos. Afinal, capitalismo, né mores?

Segundo o estudo Circular Fashion – A New Textile Economy, a cada segundo são desperdiçados um caminhão de lixo com resíduo têxtil, ou seja, sobras de tecidos que não foram reaproveitadas na fabricação que são queimadas em aterros sanitários diariamente. Está visualizando a pilha de lixo? Graças a essa modalidade de se livrar do que não será reutilizado, a indústria fashion é responsável por emitir 1,2 bilhão de toneladas de CO2, N2O, entre outros gases de efeito estufa, durante um ano. E o desperdício não para por aí. Ao todo, são jogados fora 500 bilhões de dólares por ano equivalentes a roupas compradas e pouco usadas (ou nem usadas, o que é pior), que vão parar no lixo (!). Só que o mais engraçado é que toda essa indústria ainda movimenta 2,4 trilhões de dólares por ano. E agora, consegue visualizar a pilha de lixo ao lado da pilha de dinheiro?

São processos e escalas de produção que não cabem mais no mundo. Assim como a população de bois é maior do que a de pessoas no Brasil, daqui a pouco não vamos ter espaço para andar, porque ele estará tomado por roupas não usadas e descartadas com descaso.

Existe uma mentalidade das gerações anteriores que ao comprar uma roupa usada você estará absorvendo energias da pessoa que outrora a usou. Mas você realmente quer ter uma peça que foi feita por pessoas em condições análogas ao trabalho escravo? Ou um determinado look que polui mais do que você em um ano? Ou até aquele que fez animais sofrerem em prol da passarela? Qual tipo de energia você está absorvendo então?

De volta à jaqueta: foram três anos de uso e as primeiras marcas de desgaste surgem na gola e na região dos cotovelos, que se esfarelam a cada tato. Daí você se pergunta por que as roupas antigas duram tanto. Faça as contas de novo. É intencional deixá-la rapidamente em desuso, afinal, temos que manter uma indústria de 2,4 trilhões de dólares.

Repense, reutilize, ressignifique, reviva. Às vezes o barato pode parecer realmente barato, mas no fim, quem está pagando caro somos nós mesmos, que se continuarmos nesse ritmo, não teremos mais lugar para morar.

 


Texto elaborado em parceria com a Bem Phyna.

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