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“Ser mulher hoje, no Brasil, é um ato político” – Entrevista e shoot com Lydia Caldana

Depois de você ter conhecido um pouco mais dos bastidores do shooting Night das Finas, queremos te contar também o que rolou nessa última sessão maravilhosa que contamos com a participação das modelos Lydia Caldana e Gzebel (Isa Cruz) para vestir as peças mais arrasadoras da Bem Phyna.

Com styling de Gabriella Abuleac, o shooting gerou mais do que fotografias lindas, mas também um aprendizado compartilhado entre todos que fizeram parte da experiência. Lydia revela amar a proposta da Bem Phyna, principalmente por ser muito contemporânea. “Ela entende a necessidade da mistura de itens de fast fashion com vintage e high fashion para a expressão de identidade. Além disso, a Bem Phyna também celebra a diversidade das formas dos corpos femininos”, comenta a modelo agenciada pela Squad, que tem como proposta justamente trabalhar com modelos “fora do padrão.”

Para Lydia, que trabalha também com pesquisa de tendências do consumidor, essa virada de chave estimulada pela Bem Phyna é extremamente importante. “Estamos cansados de ver roupas em corpos que não representam nem 90% da população, de termos impostos padrões de beleza inatingíveis e irreais”, diz a modelo. “A mulher que trabalha, que aprende a se amar mesmo quando tentam derrubar sua autoestima várias vezes no dia, que dança, que tem cólica, que bebe, que tem filho, que tem tretas, que se redescobre todos os dias, que se sente sozinha, que se desafia, que se satisfaz – é a mulher real, a mulher comum, eu e você: essa é a mulher que eu quero ver me vendendo um produto, e um produto que tenha sido pensado para mim, da concepção à comunicação e ao pós-atendimento”, conclui Lydia, dizendo que o blog do projeto Bem Phyno, aliás, é um exemplo que concretiza essa sua visão.

Joana Coutinho, designer da Bem Phyna, participou de todo o processo do shooting, o qual foi uma experiência nova para todos da equipe. “Por mais que sempre optemos por modelos menos convencionais, dessa vez foi um pouco mais a nossa cara. O manifesto da Bem Phyna, resumidamente, luta para encorajar todos a serem o que quiserem ser, a se expressar e se vestir da maneira que quiserem. Então acho que esse shooting foi super legal para impulsionar nossa ideologia, e afirmar cada vez mais”, ela argumenta.

Por outro lado, Joana também se sentiu particularmente tocada pela experiência compartilhada. “São duas modelos muito inteligentes e com conteúdo, foi muito alto astral! Me encantou o fato de elas não seguirem muito os padrões de beleza que nos é imposto pela sociedade. Eu sempre tive inseguranças sore meu corpo e vendo a Lydia modelando, tão linda, me deixou muito feliz e confiante!”, ela conta. “Na noite depois do shooting, por exemplo, eu estava me sentindo linda! Coloquei um vestido branco longo e dancei a noite inteira com as minhas amigas. É incrível como pessoas conseguem nos motivar, sem nem mesmo ter essa intenção. Foi demais!”

Ver que os padrões de beleza estão mudando cada vez mais é algo que encoraja as mulheres e que as torna ainda mais fortes para lutar contra o preconceito. É esse o propósito da Bem Phyna compartilhado também entre as modelos.

“Por décadas demais fomos ensinadas que a pele clara, olhos azuis, traços finos, corpo esguio e alto e cabelos lisos são aspiracionais”, explica Lydia, que diz que a geração Z, nascidos entre 1995 e 2010, é tida como a mais multi-miscigenada até hoje, de modo que cada vez menos há pessoas que são claras e de olhos azuis. “É insustentável querer impor esse padrão como o que deve ser seguido, além de extremamente discriminante. Há beleza em todas as cores, tamanhos, expressões corporais e diversidades intelectuais.”

Na Squad, Lydia revela, o grande diferencial não é a altura ou o manequim que foge do padrão das passarelas, mas sim o mindset que a agência carrega e as mensagens que passam através de seu trabalho. “Todos sabem a força da beleza que a atitude deles tem. É sobre se amar em primeiro lugar, se aceitar como você é, e se impor para uma sociedade que recrimina quase tudo que ameaça o status quo.”

Para a pesquisadora, ser mulher no Brasil, hoje, é por si só um ato político. “É ser degradada com um olhar que te come como um pedaço de carne; é se sentir um lixo quando fazem barulhos nojentos com a boca quando você passa; é se sentir culpada por vestir uma calça jeans skinny; é se cobrir e abaixar a cabeça quando passa perto de homens e eles ficam em silêncio; é levar buzinadas, assobios, beijos e puxões e achar que ‘homem é assim mesmo.’ Não é e não deve ser. Eu luto diariamente contra os meus assediadores, e garanto que não se calar perante o machismo é libertador.”

Por outro lado, no entanto, Lydia vê ainda uma resistência muito grande no mercado de moda brasileiro em aceitar essa diversidade. “É uma mudança inevitável que o amor próprio está trazendo. As lutas raciais, etárias, de gênero, de classe, de peso e tantas outras já escalaram e não vão parar”, ela ressalta. “As pessoas por trás dos maiores veículos e casas de moda são conservadoras, preconceituosas e machistas. Elas acreditam que vão se manter no poder ao ignorar que existimos. Mas tenho uma dica para eles: aceitem que dói menos.”

E essa diversidade, construção e re-afirmação de identidades perpassa também pelo âmbito da moda, no qual nos expressamos e nos manifestamos. Para a modelo, esse tipo de atitude identitária existe mesmo quando ela não parece estar ali, por exemplo para quem prefere usar sempre a mesma camiseta básica porque não se preocupa com o que vestir ou que tem milhares de looks diferentes: “São escolhas de como você se apresenta para o mundo. Elas direta e indiretamente refletem como você quer ser visto.” Lydia, no entanto, revela não ter uma identidade consistente e diz que precisaria até de uma ajuda da stylist Gabi Abuleac para conseguir isso, mas seu cabelo é algo que gosta de mudar sempre. “Acho que meu cabelo é o meio pelo qual mais me expresso, além de amar muito beleza e cuidados com a pele. Uso muitos produtos coreanos todos so dias na pele, além de brincar semanalmente com maquiagem criativa. Me sinto confiante quando me sinto saudável e reluzente”, diz ela, comentando também que às vezes precisa de um brilho externo – isto é, muito glitter!

Como pesquisadora de tendências de comportamento e de consumo na Box1824, Lydia Caldana está sempre olhando para as tendências do presente e as extrapolando para o futuro. Sua conexão com a moda, nesse caso, se dá muito mais ao entender a área como arte e como uma expressão identitária, o que está bastante ligada à sua profissão. “As pequenas tendências de moda são necessárias para termos ferramentas de expressão, para não nos entediarmos, irmos e voltarmos, nos esquecermos. Acontece que somos tão parecidos uns com os outros que essas tendências globais representam a expressão individual de comportamento de milhões de pessoas ao mesmo tempo. Sem nos darmos conta, estamos todos surfando a mesma onda, achando que somos todos muito únicos. É aí que grandes fast fashions faturam”, ela explica.

Já seu trabalho de modelo veio da vontade de criar imagens lindas e de transformar a si mesma em cada photoshoot. “Eu amo mudar quase completamente a cada fotógrafo, look e maquiagem. É como descobrir milhares de facetas suas a cada ensaio.” Lydia também canaliza essa criatividade dirigindo vídeos e projetos audiovisuais, como é o caso do RIAEKIN270, projeto que será lançado dia 31 de março no evento Nike Air Max Day na Red Bull Station.

FICHA TÉCNICA

Modelos: Lydia Caldana e Gzebel (Isa Cruz).
Fotógrafo: Nicolau Spadoni
Styling: Gabriella Abuleac
Beauty: Débora Bitencourt

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