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“Vestir-se é um manifesto”: Entrevista com a historiadora Vanessa Bortulucce

Vanessa Beatriz Bortulucce é um daqueles exemplos incríveis que traduzem tudo aquilo (e muito mais!) que aspiramos no estilo de ser Bem Phyna.

Historiadora formada pela UNICAMP, ela se voltou para a história da arte ainda no mestrado e concluiu um doutorado em história social na mesma instituição, bem como pós-doutorado no Departamento de Letras Modernas da FFLCH-USP mais tarde. Mas apesar de toda a sua dedicação à academia e ao estudo da história, Vanessa nunca escondeu sua paixão pela moda: e isso se transparece tanto em seus estudos quanto nos seus maravilhosos looks postados no Instagram!

Vanessa confessa se sentir muito grata por ter conseguido conciliar sua formação em história com um gosto que já nutria desde a adolescência. Por conta disso, hoje Vanessa se define muito mais como uma historiadora da imagem do que da arte, entendendo toda a abrangência que essa área pode ter para além do ambiente formal dos museus e galerias, mas com um toque pós-histórico como proposto por teóricos como Hans Belting.

Quando a moda imita a arte

E a conexão entre as imagens da moda e as imagens da arte pode ir desde as mais evidentes até as mais sutis, como comenta a especialista: “Diversos estilistas tomaram por referência o vestuário das classes mais abastadas, da realeza, e neste sentido as pinturas foram um mood board frequente.” Apesar de podermos claramente ver até hoje como a inspiração no vestuário barroco e renascentista continuam presente na assinatura de grifes como a Dolce & Gabbana e Valentino, Vanessa atenta para as referências mais sutis em que a moda explora a arte abstrata e de vanguarda. “Não consigo pensar em exemplo mais icônico do que o vestido Mondrian, de Yves Saint-Laurent. As criação de Schiaparelli com Salvador Dalí também são importantes nesse sentido”, ela comenta.

Por outro lado, a historiadora também comenta o fato de que a relação entre arte e moda também se dá em sentido contrário: o vestuário e a moda passaram a ser vistos como elementos importantes da cultura, então integrando acervos de grandes museus ao redor do mundo. “Interessante, também, é notar como pensamos muitas vezes em quadros, mas eu fico aqui pensando no contato íntimo entre moda e escultura, criações que envolvem o tridimensional, a modelagem, o jogo de volumes e texturas”, ela complementa.

Nesse sentido, também a própria imagem e a personalidade de artistas se tornou um elemento fashion. Frida Kahlo e Cindy Sherman são dois exemplos que caíram no gosto da moda e se tornaram ícones de inspiração. Para Vanessa, a moda hoje é, em grande parte, um “wearable art“, uma vez que as peças produzidas por grifes acabam adquirindo, em si, um valor artístico. Desse modo, Vanessa defende que vestir uma peça traduz, de alguma forma, a vivência e a atitude de mulheres como Kahlo e Sherman – e esse é mesmo o poder de uma roupa. “Não seria ‘vestir uma personagem’, pois ninguém quer ser uma caricatura de outra persona, mas sim experimentar, vivenciar, partilhar valores que são importantes, ‘fazer parte’, dizer quem você é”, argumenta a historiadora. “Vestir-se é um manifesto. Por outro lado, é interessante pensar como a indústria da moda escolhe suas referências – o que essas mulheres significam para nossa época, que valores a marca quer transmitir, qual público ela deseja atingir.”

Brechó: uma biblioteca de memórias

É por isso que peças de “segunda mão” vendidas por brechós passaram a ser revistas como itens que, na verdade, trazem história, um significado e uma atitude para a maneira como combinamos nossa estética à nossa ética, nossa personalidade e identidade. Como historiadora e amante da moda, Vanessa não poderia deixar de adorar brechós. “Acho divertido procurar peças, encontrar algo que parece que ficou esperando por mim”, ela revela. “Um brechó é uma espécie de biblioteca bagunçada – milhares de referências histórias estão lá, misturadas, coloridas – muitas vezes o simples fato de entrar num destes lugares me dá um surto criativo.”

Para Vanessa, os brechós são, justamente, um “repositório de memórias”, especialmente as memórias coletivas, associadas à época, às tendências que estavam em voga: “Além do mais, essas peças também trazem a memória secreta daquela pessoa que viveu aquela peça de roupa, e eu acho isso empolgante.” A pesquisadora revela que também não deixa de gostar dos preços mais em conta, mas que são as camadas de história que mais a intrigam e que mais a fazem apreciar os brechós: “Coisa de historiadora.”.

Mas é justamente esse seu olhar histórico que traz um novo posicionamento tão alinhado ao espírito de nosso tempo. “Temos uma ideia muito arraigada e rasa de que roupas só têm valor quando são novas, que usar peças usadas é coisa ligada à caridade e à falta de recursos, sem falar que algumas pessoas têm superstições a respeito. Mas em uma sociedade ultraconsumista como a nossa, comprar em brechós é um ato de sustentabilidade”, ela reforça.

Vanessa comenta que marcas como a Gucci de Alessandro Michele também fazem um grande sucesso justamente por incorporarem elementos que as posicionam como a quintessência da estética dos brechós, isto é, o clash de estampas, as referências de épocas variadas, o resgate de tecidos outrora considerados “cafonas”, um mélange histórico que se mostrou profundamente original. São essas qualidades que, ao serem apropriadas pelas grifes, reforçam ainda mais o sentido e a importância do retorno e fortalecimento dos brechós.

Ao trazer de volta peças históricas e que contêm história, os brechós alimentam a mesma sensação de enlevo que se tem diante de uma obra de arte, porém ao proporcionar esse mesmo prazer a partir do vestuário. “Vestir-se é incorporar, trazer ao corpo, a sensação tátil e emocional da roupa. É a primeira colherada na sobremesa – aquela descoberta da melhor sensação, e o desejo de prolongá-la. Sem dúvida, vestir o que gostamos é um prazer”, comenta Vanessa.

Dentre suas marcas preferidas, é Yves Saint Laurent quem reina absoluto para a historiadora, tanto como criador quanto como grife. Mais recentemente também foi o trabalho de Alessandro Michele na Gucci que encantou Vanessa: “Suas roupas são uma aula de história da moda, e são muito lindas!”. Das grifes mais recentes, a Erdem e a Miu Miu são algumas de suas inspirações para criar looks que não só a fazem ainda mais deslumbrante, mas também trazem essa nova camada de prazer e a habilidade de fazer a vida ainda melhor de se viver!

Confira alguns dos looks incríveis que Vanessa compartilha com seus seguidores no Instagram:

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