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Visual merchandising, arte e body positivity: uma entrevista com Diogo Machado

Em outro post, apresentamos a trajetória da historiadora Vanessa Bortulucce e como ela encontrou nos seus estudos em história da arte uma forma de se reconectar com uma antiga paixão, a moda. Hoje vamos conhecer um pouco mais do ilustrador Diogo Machado, que deixou as galerias de arte para se tornar visual merchandising especializado em moda de luxo masculina.

Aos 27 anos, Diogo já trabalhou para grifes como Kate Spade NY, Burberry, Tufi Duek e Ermenegildo Zegna e hoje ele nos conta como se tornou um dos poucos profissionais atuando na área, no Brasil, e quais foram seus aprendizados sobre body positivity ao trabalhar com moda e ter lutado uma vida toda contra a gordofobia.

Do papel para o tecido

Formado em artes visuais, Diogo sempre quis estudar moda, apesar de seus pais sempre também terem sido contrários a isso. “Como eu tinha estudado desenho artístico desde sempre, acabei decidindo que a faculdade de Artes Plásticas seria minha melhor opção, mesmo sonhando com moda o tempo todo”, ele comenta.

Durante a graduação, no entanto, Diogo procurava inserir seu interesse em moda nas aulas de história da arte. “Eu amava muito o período do impressionismo pelas pinturas das menininhas em vestidos floridos do Renoir ou a imagem rebuscada e cheia de ornamentos do Art Noveau do Klimt. Sempre prestava muita atenção nas roupas dentro das pinturas. Nas aulas de escultura, eu tentava sempre estudar o tecido, linhas, brincava sempre com a ideia de escultura para vestir, algo que envolvesse o corpo humano”, ele conta, dizendo ainda que, durante as aulas de desenho, no entanto, ele sempre se interessou mais em desenhar tecidos, pregas e adornos em vez de paisagens ou retratos.

Por um acaso, durante a faculdade, enquanto trabalhava em grandes museus e galerias como produtor artístico, Diogo foi convidado a trabalhar em uma loja de roupas, a antiga American Apparel na rua Oscar Freire. “Meus pais, na época, queriam me matar, porque eu estava no último semestre, trabalhando no Memorial da América Latina, e de repente fui trabalhar no varejo!”, ele recorda.

Apesar de ter atuado como estoquista, Diogo também ajudava sua colega de trabalho a montar as vitrines e foi a partir dali que já começou a entender o que se tornaria sua especialidade. “Por ter um senso estético avançado e entender sobre cartela de cores, composição visual e outros elementos que aprendi nas artes plásticas, fui me inserindo nesse trabalho e fazia questão de ajudar em tudo. Um dia, ela saiu e perguntou se queria ficar no lugar dela cuidando das vitrines. Desde então, virei Visual Merchandiser”, ele conta.

As vitrines das lojas da marca Paul Smith são algumas das inspirações e referências de Diogo.

O espaço do VM no Brasil

Diogo afirma que o mercado de visual merchandising ainda é um nicho muito específico e de certa forma pequeno, no Brasil. “Toda loja tem uma vitrine, mas parece que ninguém sabe como ou quem faz aquilo. Eu mesmo não imaginava que existiam dentro das marcas equipes enormes de pessoas que cuidavam apenas da parte visual das lojas.”

Sendo o Brasil o quinto maior produtor têxtil do mundo, seria de se esperar que o país tivesse o VM como uma área próspera e cheia de oportunidades, mas Diogo diz que não é bem assim. “Ainda existe uma falta de atenção para essa área, porque a maioria das empresas ainda trata o VM como uma coisa superficial, uma bobagem”, ele revela, dizendo ainda que qualquer profissional da área gasta pelo menos duas horas desenvolvendo um conjunto de manequins e, em dois segundos, algum gerente pode aparecer dizendo que não gostou e pedir para mudar tudo. “O VM é muito subjetivo, no sentido de que tudo que é visual fica aberto à interpretação. E a moda fala de gostos, estilos, perfis, tudo é muito subjetivo. É por isso que eu acho importante que mais empresas pesquisem e entendem a importância do VM no varejo de moda.”

A partir de sua experiência, Diogo entendeu a importância de uma vitrine bem feita como uma forma de estabelecer conexão visual entre o produto e o consumidor, ajudando então na venda. “Existem técnicas e conceitos aplicados à prática de VM que normalmente são ignorados, porque a olho nu parece que foi tudo instintivo e ‘por gosto’. Mas, na verdade, é muito mais técnico do que parece”, ele explica, indicando que seu conhecimento em artes visuais foi um diferencial, já que na faculdade são ensinadas técnicas e ferramentas necessárias para se expressar uma ideia, para entender que criatividade e “talento” são dons administráveis e que, na realidade, exigem muito planejamento e dedicação.

Moda ilustrada

Mesmo com toda essa dedicação voltada ao visual merchandising, com direito a madrugadas gastas montando vitrines, Diogo sempre arranja um tempo para desenhar. Foi no Instagram que ele encontrou a atenção voltada para suas ilustrações realistas, porém ainda com um toque autoral e que faz com que o gênero perca um tanto de sua rigidez para se tornar mais intuitivo.

“Na faculdade, eu tinha muitos problemas com os professores de desenho, porque eles sempre diziam que meu trabalho era muito ‘ilustrativo’ e não ‘artístico’. Em aulas de desenho artístico, você aprende luz e sombra, profundidade, esfumaçado e essas técnicas que normalmente quem faz desenho realista usa. Eu uso algumas delas, mas no geral acabo sempre deixando algum pedaço inacabado e não tão muito sombreado”, ele conta.

A aquarela entrou em sua vida como artista durante o último semestre da faculdade, quando começou a experimentar com a tinta e acabou se identificando com ela. “Muita gente tem dificuldade com aquarela, porque apesar de ser uma tinta, você não ‘pinta’ com aquarela – você ‘arrasta’ a tinta para onde você quer que ela fique. É um processo completamente diferente.”

Aliando a técnica à ilustração de moda, algo que já estava em seu radar, mas que só ali ele passava a dar um olhar mais técnico, Diogo então uniu as duas áreas e começou a ilustrar editoriais de moda, celebridades da música, desfiles e streetstyle. “Sempre que alguma imagem de moda mexe comigo, eu tenho vontade de desenhar. Não consigo muito criar do zero, imaginar personagens. Eu gosto de dar minha interpretação para alguma peça de roupa que vi e amei.”

Body positivity

Durante sua trajetória pessoal e profissional, no entanto, Diogo encontrou outro desafio que ia além de seu dom e dedicação ao estudo da pintura e do visual merchandising. Depois de uma vida inteira tendo que enfrentar comentários e atitudes preconceituosas e agressivas contra pessoas acima do peso, Diogo passou a observar o comportamento das pessoas depois que conseguiu perder 30kg com a dieta low carb.

“Fui obeso a vida inteira e lutava muito com isso, especialmente por gostar de moda e nunca encontrar nada que fosse legal e me servisse”, ele conta. “Depois de emagrecer, eu comecei a tentar entender melhor como isso funciona. É muito comum as pessoas que emagrecem começarem a reproduzir padrões gordofóbicos, toda aquela história de que só é gordo quem tem preguiça porque ‘eu consegui, então todo mundo consegue’. E eu me peguei pensando assim, mesmo que de brincadeira. Mas tendo passado pelo processo de emagrecimento me fez mudar muito a minha cabeça.”

Diogo entendeu, então, que disfarçava sua gordofobia com a desculpa de ter “paixão por moda”, tentando assim justificar sua obsessão com magreza porque “na moda é assim.” Com o tempo, ele percebeu que esse problema ia muito além da moda e questões de padrão de beleza. “É uma coisa muito delicada e que precisa ser tratada com cuidado. Passei por situações muito chatas por ser gordo e trabalhar com moda, como quando trabalhei numa loja que me exigiam usar uniforme, mas nenhuma peça me servia”, ele comenta.

Para descrever melhor todo esse processo e aprendizados, Diogo criou o blog Le Low, no qual conta suas histórias para tentar abrir uma luz no caminho de quem está passando pelo mesmo ou que pretende tentar emagrecer. “É também para desabafar sobre esse assunto que sempre foi tabu para mim.”

How to 

Por último, Diogo ainda deixa uma dica para quem quiser seguir a carreira de visual merchandising. Uma vez que, no Brasil, trata-se de uma área bastante nichada e pouco explorada, são pequenos detalhes que podem ser um grande diferencial, como é ter fluência em inglês. “Isso te coloca na frente de muita gente que tem mais experiência, além de te abrir um leque muito maior de referências. Depois é se jogar no mundo”, brinca Diogo, apesar de reforçar que estudar e treinar bastante também ser essencial. “A prática faz a perfeição. Eu não estaria onde estou na idade que tenho, 27 anos, se não fossem as noites que fiquei estudando inglês, desenhando 4 ou 5 ilustrações por dia, lendo milhares de livros e pesquisando sempre as novidades.”

Quando começou a trabalhar com moda masculina, Diogo sequer sabia dar nó em gravata, mas isso não o impediu de persistir. “Gastava um sábado inteiro vendo tutoriais no YouTube e praticava com uma gravata baratinha que comprei de emergência. Quando sobrava algum tempo, eu sempre ia conversar com os alfaiates das lojas, pegando dicas de como passar uma calça de alfaiataria, como alfinetar sem aparecer. Tive oportunidade também de fazer treinamentos e pesquisas em Milão e Nova Iorque, mas tudo por falar inglês e sempre me dedicar bastante, me destacando pelo trabalho duro e de qualidade.”

Em outras palavras, o que Diogo deixa como mensagem é que, tanto a nível de desenvolvimento pessoal quanto profissional, ele não teria chegado onde chegou se tivesse ficado na zona de conforto. “Tem que saber a hora de abraçar aquela oportunidade e se jogar. Perguntar quando tiver dúvida, pesquisar quando não souber de alguma coisa e trabalhar muito.”

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